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Chá, Ciência e Poesia em Terras de Maresia...

14-05-2003 12:38:00












Regina Gouveia nasceu em Outubro de 1945 e passou a sua infância e adolescência no Nordeste Transmontano. Professora do Ensino Secundário, é Licenciada em Físico-Químicas pela Universidade do Porto e Mestre em Supervisão pela Universidade da Aveiro. Dedicou muito do seu tempo à formação de professores (foi orientadora de estágios durante 22 anos), área a que continua ligada. Tem dois livros publicados, “Se eu não fosse professora de Física… Algumas reflexões sobre práticas lectivas” e “Reflexões e Interferências”, bem como vários trabalhos, só ou em co-autoria, alguns deles publicados no estrangeiro.


Um dos seus passatempos favoritos é a leitura e um dos seus livros de cabeceira é sempre um livro de poesia. Gosta genericamente de poesia, mas a poesia por vezes designada como científica, exerce sobre ela um fascínio muito particular, daí que Gedeão seja um dos seus poetas favoritos. Um dia decidiu aventurar-se na escrita, que foi secreta até 2001. Aqui ficam alguns exemplos do material que ela foi capaz de produzir.


Venha ao Centro Ciência Viva de Vila de Conde, a 3 de Maio, pelas 15:00H, conhecer a autora, descobrir outros poemas e…tomar um chá connosco.






Sorriso
Junto à campa da minha mãe
nasceram lírios no passado mês.
Alguns dos seus elementos,o magnésio talvez,
Já terão sido, por certo, pertença da minha mãe.
Há momentos passava pertode um lírio que ali cortei
e quando o olhar fixei, pareceu-me ver alguém
que sorria para mim. Doce, o sorriso, sem fim.
Por certo era a minha mãe, Só ela sorria assim.

Chama
Dançava a chama, voluptuosa,
espalhando em redor um tom vermelho-rosa
As achas ardiam na lareira
e a criança batendo as palmas, rindo,
dizia “lindo, lindo”, apontando a fogueira.
Era uma chama voluptuosa e ao mesmo tempo etérea,
por causa do plasma, o quarto estado da matéria.
Vibravam núcleos e iões, e em estranhas convulsões,
electrões davam saltos quânticos.
Era a energia que assim se emitia
em passos de dança, sensuais, românticos.
A criança que, batendo as palmas, rindo,
dizia “lindo, lindo”, adormeceu sorrindo.
E então a louca chama, pressentindo
que a criança já estava dormindo,
deu em esmorecer, foi-se extinguindo.

Mole
Se me falam em mole, por associação,
posso pensar em macio, em massa informe,
mas posso pensar em rígido, isso conforme
pensar no significado ou na oposição.
Mas estranho é pensar em mole como quantidade,
a que corresponde aquela enormidade,
seis vezes dez elevado a vinte e três.
É estranho ou esotérico talvez,
mas é assim que o nosso mundo é feito.
Não deixaria ninguém satisfeito uma mole de pão
já que nos esmagaria e, de tal jeito,
nem poderíamos morrer de indigestão.
Mas se ao mundo chegasse uma mole de amor,
por certo o mundo desabrocharia em flor.
A exploração, a xenofobia,
a guerra, a fome, tudo acabaria
e um novo mundo, então, começaria.

Regina Gouveia in Reflexões e Interferências

"Regina Gouveia […]respira poesia por todos os poros, talvez influenciada, desde muito cedo, pela sensibilidade telúrica do Nordeste Transmontano, onde passou a infância. A sua alma de poeta ressalta da leitura destas “Reflexões e Interferências” onde encontramos, ao virar de cada uma das seis dezenas de páginas, belos e sumarentos poemas, cheios de vida, de reciprocidade intimista, de observação atenta da actualidade e do quotidiano."

in Jornal Poetas e Trovadores de Guimarães, nº 24
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